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Nove dias na cabeça de um paranóico socialmente aceito

          Você é um grafiteiro de primeira linha. Casado, filhos lindos, quarenta e poucos anos. Ama o que faz. Trabalha em média de 8 a 10 horas para finalizar cada job.

Atende uma ligação de uma pessoa desconhecida, sujeito simpático, entra em contato para que faça um job de duas paredes em um estabelecimento comercial. É um pub com duas paredes em formato L. O orçamento é padrão pela metragem. Informa o preço e a quantidade de horas para o serviço. O novo cliente aceita rapidamente o orçamento e paga adiantado em transferência para sua conta. Você se surpreende com tamanha confiança e rapidez neste job. Logo, pensa que o cliente ou tem muita pressa ou muita empolgação para ver concretizada a sua idéia.

Fechado o acordo, novo cliente te apresenta uma proposta de design fantástico: Cores, formas, temas, tudo parece lindo, desafiador e instigante. Você pensa sobre o desafio com o cuidado de assumir o compromisso até o fim. Pensa, rabisca e planeja até que os riscos estejam mapeados e o seu “sim, eu aceito” é dito com a segurança de um profissional que não vai decepcionar a outra parte. O Primeiro Dia         Segunda-feira, dia pré-acordado, chega e pontualmente às oito da manhã a execução começa. Prepara o material sobre uma mesa de madeira escura, forra cuidadosamente o chão para evitar respingos e veste o avental surrado de carreira.         O cronograma correu suavemente. Passadas algumas horas a primeira parede fica pronta e o trabalho está tomando forma. Tudo é bem excitante. Você não vê a hora de visualizar o conjunto, fotografar, postar e se orgulhar de um trabalho bem concluído. Tudo está indo conforme o projeto inicial e a execução está impecável.  Se afasta alguns metros para apreciar brevemente a obra e sente um grande orgulho naquele trabalho em evolução. É hora de dar o próximo passo e a segunda parede começa a ser pintada. Agora, você já se acostumou com a textura porosa do cimento. Já sabe a densidade da tinta e o pincel correto a ser usado em cada ponto daquelas paredes. Aquele bloco cinza já parece mais amigável que ameaçador e a ansiedade do fracasso não existe mais. A parede se torna familiar, confortável e é apenas uma questão de tempo e dedicação para concluir com chave de ouro. Ao pegar o pincel para a segunda e última etapa deste desafio, algo acontece: O cliente que acompanhou boa parte do processo com olhos amigáveis, surpreende e diz que precisa interromper o trabalho. Algo inesperado aconteceu e o estabelecimento precisa ser fechado pois foi requisitado em um compromisso inesperado e urgente: “Desculpe, precisamos reagendar a finalização para os próximos dias”. Tomado por surpresa e compreensão, você reage positivamente pois afinal, "estamos todos sujeitos a imprevistos" - pensou. Você guarda o material instintivamente pois não sabe ao certo o peso da urgência, mas quer colaborar. Você sente vontade de questionar, mas não sabe ao certo o que perguntar e até que ponto seria indelicado e diz apenas: “ Está tudo bem? Existe algo que eu possa fazer por você?” . O cliente sinaliza com um sorriso: “Infelizmente não. É uma pena mas retomaremos em breve”. Vocês se despedem e cada um segue seu caminho. O Segundo Dia No dia seguinte, você acorda com uma estranha excitação sobre aquela parede que ficou cinza. É como se o imprevisto tivesse um aspecto positivo de aguçar e permitir ainda mais reflexões sobre a melhor forma de executar os 50% que restam. O otimismo ancorado na lembrança daquela parede surge como raio de manhã e logo depois do almoço, quando sua cabeça está mais livre dos tormentos.  A noite chega e o cliente ainda não mandou mensagem. Você pensa que está tudo bem, afinal, nem todos os problemas podem ser resolvidos assim tão rapidamente. O Terceiro dia No segundo dia sem notícias, você se lembra daquele assunto inacabado na penumbra entre o travesseiro e o toque das horas no celular. É hora de levantar e aproveitando o aparelho em mãos, checa a improvável mensagem às sete da manhã. Sem grande surpresa e com um leve sentimento de decepção, confirma que nenhuma mensagem foi recebida. Não quer parecer excessivamente disponível então espera até as 10 horas para mandar uma mensagem: “Oi? Tudo bem?” – caso ele tenha esquecido do compromisso que firmaram há três dias atrás. Sem resposta em 60 segundos seguintes, você replica com o cuidado da empatia “ Resolveu seu problema?” e na sequencia: “Quando podemos seguir com o trabalho?”. Exatos 22 minutos depois ouve o doce som na notificação da resposta. Um curto alívio até ler: “Oi! Sim, um pouco corrido por aqui”, “Vamos tentar até o final dessa semana ou início da semana que vem”.  Eis a sua resposta. Não é o calor que esperava, mas pelo menos é um prazo para focar em outros projetos: “Ok, no tempo dele, afinal o interesse é de ambos”. A quinta feira passou sem problemas. Você trabalhou, pagou as contas, beijou as crianças e a vida correu amparada pela rotina. O Quinto dia A sexta-feira chega e com ela um pensamento matutino amarga seu primeiro gole de café: “Talvez ele não tenha gostado do trabalho”. Tenta em um esforço se lembrar de algum detalhe despercebido, algum momento durante aquela primeira parede em que seu cliente pareceu descontente. Mas como poderiam duas percepções sobre um mesmo episódio serem tão diferentes? Afinal, na sua visão autocrítica, conhecedor da concorrência, apreciador de arte  o resultado tinha sido impecável. Distinto e peculiar, sim, como deveria ser cada obra, mas coerente com o briefing, situação e premissas do projeto original. “Não vejo em que ponto errei”.  O dia segue sem notícias e aquele amargo pensamento ficou presente em algum cantinho remoto da boca. Não muito denso, mas alí, presente em um incômodo. Sábado e domingo você se lembra de tudo mas força seus pensamentos a um nível mais elevado. Concentra-se em coisas mais doces afinal ele disse “...talvez início da semana que vem”. Oitavo dia Segundas feiras são tipicamente pesadas, na energia de Chessed, mas aquele dia especificamente poderia entrar para o hall da exceção. “Hoje ele vai ligar para terminar a parede”. Afinal, quem é que deseja manter um trabalho pela metade em seu próprio estabelecimento? São 17 horas da segunda feira e nenhuma ligação ou mensagem. Falta apenas uma hora para o dia comercial terminar e ele não deu nenhum sinal de vida. De repente um sentimento de ira e bate como um raio: “Foi ele quem me chamou para o job! Acessou meu instagram e teve tempo suficiente para eleger meu portfólio. Ele sabia o que esperar”. Apimentado por tons de “irresponsável”, “imaturo”, “babaca egocêntrico além de descumprir o acordo, continuou me enrolando ao invés de simplesmente dizer que não queria mais”. A vontade de finalizar aquela parede não era só pelo encantamento do cliente. Era uma questão de simplesmente concluir um projeto que você tanto ama realizar afinal gastou horas do seu tempo idealizando como ficaria linda e seria uma bela recordação de uma obra bem executada. A noite passa e você adormece prometendo a si mesmo que aquele pensamento não mais afetará seu estado de humor, afinal, cliente nenhum merece este desgaste, principalmente um cliente babaca como aquele. Nono dia Terça feira clareia na janela. Você pega o celular no criado, serve uma xícara de café e decide gastar uns minutos no instagram enquanto dura a transição de letargia para produtividade. O polegar parece fazer movimentos mais impacientes rolando para cima a medida que ignora fotos de paisagem, amigos e artesanato. Parece procurar por algum conteúdo mais excitante para inspirar o resto do dia. De repente os olhos e dedos congelam naquela posição exata: Uma foto postada ontem por aquele cliente pedante, com trinta dentes sorrindo por trás da mesa de madeira escura, que há duas semanas atrás apoiou seus pincéis. “Ele esteve lá” – “Ele esteve lá e não parecia estar com problemas”. O café que estava na boca fica subitamente amargo e precisou de um esforço extra para ser engolido. A IRA retorna e agora intensa. A confirmação que você precisava da completa falta de respeito, comprometimento e autenticidade deste babaca covarde que não teve a consideração de falar que simplesmente não desejava prosseguir. Seja por uma culpa cristã, ensinamentos de seu pai ou simplesmente um ego ferido insistindo em negar a própria existência, você decide que algo deve ser feito. Até aquele momento, havia respeitado os prazo máximo solicitado, recebeu o pagamento integral antecipado e algo deveria ser dito. Cuidadosamente no bloco de notas do celular, para não correr o risco de um disparo precipitado, você escreve a seguinte mensagem: “Bom dia Cliente. Existe um trabalho pendente em seu estabelecimento e como profissional estou à disposição para finaliza-lo. Peço que o senhor, caso ainda tenha interesse em faze-lo, me confirme com DOIS – apaga o dois e corrige – TRÊS dias de antecedência para que possa programar minha agenda de compromissos. Obrigado”. Lê em voz alta e busca por possíveis desvios de interpretação em suas palavras. Certo que está fria, direta e disponível ao mesmo tempo, envia a mensagem ao tal cliente, para que de uma forma ou outra, sua vida possa ser retomada com a clareza que o assunto foi resolvido. Seguro de sua atitude, não evita aguçar a audição qualquer possível retorno. Foi uma hora depois que a resposta chegou: “ Oi grafiteiro, tudo bem? Não esqueci de você. Ia te ligar ontem mas fiquei sem bateria. Vamos marcar amanhã?” “Oi?? Amanhã? Ele não leu os ‘TRÊS DIAS’ em caixa alta? Quem ele pensa que é? Acha que vai apagar minha agonia das últimas semanas com mais uma promessa vazia?” – você pensa enquanto esfrega o rosto lentamente com as mãos rígidas de indignação e dúvida. “Bem, mas ele não tem culpa do que eu senti. Será que esse assunto teve um peso emocional para mim muito mais intenso do que teria para outro profissional?” – Começa a duvidar do próprio julgamento. Digita em resposta: “depende, que horas?” – Ah, vá! Você tenta se fazer de difícil, mas o fato é que ele te tem na mão e sabe disso. “Pode ser as 15h?” – respondeu o infeliz “(Emoji Thumbs up)” – Você escolhe. O fato é que localizar este emoji dá muito mais trabalho do que escrever simplesmente “ok”. Sua sanidade está realmente comprometida. “Como cheguei a este ponto? Justo eu, tão seguro do meu trabalho?” Quanto mais você pensa, recorda das mensagens seu ego é rebaixado a 10% do potencial. Além do talento que já foi auto questionado, agora sua estabilidade emocional está comprometida também. Você se culpa por ter permitido tantas emoções, dúvidas e tempo perdido em uma reflexão existiu somente em sua cabeça este tempo todo. Os fatos reais e a situação racionalmente verbalizada não tinham nada demais: Um job que começou, atrasou e agora será terminado, ou não. Ponto! Quantas pessoas você feriu neste período? Respostas em pedradas à sua esposa, portas fechadas para as crianças, criatividade bloqueada, produtividade congelada... Você, somente você causou isso por um nervosismo injustificável. “Nunca mais” – disse a você mesmo em voz alta para que seu próprio cérebro, entidade autônoma tenha clareza em ouvir. “Nunca mais quero entrar neste ciclo, nessa armadilha da expectativa frustrada causa da irresponsabilidade de terceiros. Eu e somente eu, sou responsável pelos meus sentimentos.” Você puxa um pincel atômico da maleta e escreve no primeiro pedaço de papel  que vê na mesa à sua frente: “Diga ao próximo: Nunca comece o que não pode terminar”. Dobra aquele papelzinho amarelo, coloca na carteira e segue para o próximo orçamento. FIM (?)

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